[Resenha] Perdão Leonard Peacock – Matthew Quick

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Hoje é o aniversário de Leonard Peacock. Também é o dia em que ele saiu de casa com uma arma na mochila. Porque é hoje que ele vai matar o ex-melhor amigo e depois se suicidar com a P-38 que foi do avô, a pistola do Reich. Mas antes ele quer encontrar e se despedir das quatro pessoas mais importantes de sua vida: Walt, o vizinho obcecado por filmes de Humphrey Bogart; Baback, que estuda na mesma escola que ele e é um virtuose do violino; Lauren, a garota cristã de quem ele gosta, e Herr Silverman, o professor que está agora ensinando à turma sobre o Holocausto. Encontro após encontro, conversando com cada uma dessas pessoas, o jovem ao poucos revela seus segredos, mas o relógio não para: até o fim do dia Leonard estará morto.

O que eu achei de Perdão, Leonard Peacock?

Perdão, Leonard Peacock é o novo livro de Matthew Quick. Narra a história de Leonard, um garoto que, no dia de seu aniversário, decide matar seu ex-amigo, Asher Beal e depois se matar, para finalmente chegar ao super nada. Para fazer isso, ele quer terminar sua última missão que é entregar presentes e se despedir das quatro pessoas mais importantes da sua vida. A história do livro começa quando Leonard está tomando seu café da manhã e prossegue conforme ele se encontra com cada um dos seus amigos, e vai entregando cada presente.

Leonard é um garoto cabeludo, com um estilo meio largadão e que vive bastante solitário. Ele parece bastante depressivo e, apesar de ser muito inteligente e dono de um raciocínio perspicaz, acaba sendo absolutamente mal compreendido. Aparentemente, ele chegou em um ponto em que desistiu de se explicar, então, quando inevitavelmente, alguém o destrata ou o isola por algo que ele disse ou fez, ele simplesmente continua em silêncio e deixa pra lá.

Foram todos esses anos de abandono – pelo pai, que desapareceu depois de ter sido pego pela polícia enquanto fugia do país em razão das dívidas que acumulava com o governo americano e pela mãe, uma estilista que foi para Nova York enquanto ele ficava em South Jersey – que fizeram com que Leonard não pensasse em ter um futuro e não alimentasse mais esperanças. Ele vai matar Asher Beal e vai se matar.

Os momentos em que ele passa com cada um dos quatro amigos é bastante revelador. Conforme ele conversa com cada um, tenta, por meio do seu discurso, dar pistas do que irá fazer ao final do dia, mas aparentemente, não consegue transmitir sua mensagem. Isto porque, segundo o que ele acredita, as pessoas estão mais preocupadas em rotular e classificar os outros. Ele não consegue perceber uma preocupação real com relação aos desejos e necessidades das pessoas, mas entende que as pessoas simplesmente estão programadas para dar certas respostas, sem raciocinar.

Como a pessoa crítica que é, ele gostaria que os outros parassem pra pensar no que estão falando e demonstrassem uma real inclinação a compreender aquele com quem conversam. O relacionamento dele com Lauren, na minha opinião, é um dos mais marcantes. Ela é cristã e tenta a todo momento levá-lo para Cristo. Ela entende que o cristianismo é a resposta mais adequada para os problemas do mundo e das pessoas e desde o primeiro momento em que conversa com Leonard, tenta incutir nele essa mensagem. Ainda que esta seja a minha forma de ver o mundo, a caracterização de Lauren pelo autor reflete, na minha opinião, a exata impressão que os cristãos tem passado ao mundo: pessoas sem raciocínio lógico, sem capacidade de argumentação e meras máquinas que decoram uma verdade como certa e começam a repeti-la por aí, como papagaios e, quando um questionamento é mais profundo do que o conhecimento que eles tem, ou foge do script decorado, eles se fecham em seu mundinho e desistem de argumentar e abrem mão da possibilidade de adquirir ainda mais conhecimento e amadurecimento. Lauren é, como os cristãos, cheia de boas intenções, mas sem nenhum preparo para lidar com alguém que pensa diferente dela e crê em coisas opostas. Ela não está, como a maioria dos cristãos, preparada para um debate saudável em que ambos os lados apresentam seus argumentos e não tem maturidade para aceitar que precisa estudar mais isso ou aquilo, ou que sua argumentação pode estar furada em algum ponto.

O relacionamento entre Leonard e Lauren me chamou muita atenção por causa disso. Como cristã, Lauren poderia ter significado um auxílio e um suporte a Leonard, no momento em que ele mais precisou, mas ela não teve capacidade de entender os sinais que ele mandava nem agir com um pouco mais de misericórdia e olhos de amor, que o poderiam ter salvo dele mesmo. Essa parte do livro nos faz questionar nosso posicionamento como pessoas. Independente da religião que você professa, se ela não faz de você uma pessoa melhor nem permite que você leve aos outros uma mensagem de paz e luz, que é o que o nosso mundo mais precisa hoje em dia, alguma coisa está muito errada.

O papel de Leonard na história é nos mostrar que existem pessoas que querem ser vistas, que precisam de consolo e atenção, mas não são fortes o suficiente para demonstrar isso claramente e depende de nós, aqueles que estão em volta, que convivem de perto, perceber que é necessário estender a mão. Ler os sinais e as entrelinhas. E se não for possível dizer isso claramente, simplesmente fazer uma oração, dar um abraço, oferecer um sorriso sincero.

O mundo precisa de mais amor. Por favor.